sábado, 21 de janeiro de 2012

aos que se dizem artistas

[Cansado da fome espiritual
Em meio a um deserto triste meu caminho fiz, 
E um anjo de seis asas veio a mim 
Num lugar onde havia uma encruzilhada. 

Com dedos leves como o sono 
Tocou as pupilas de meus olhos 
E minhas proféticas pupilas abriu 
Como olhos de águia assustada. 

Quando seus dedos tocaram meus ouvidos, 
Estes se encheram de rugidos e clangores 
E ouvi o tremor do céu 
E o vôo do anjo da montanha 
E animais marinhos nas profundezas 
E crescer a videira do vale. 

E então, pressionou-me a boca 
E arrancou-me a língua pecadora, 
E toda a sua malícia e palavras vãs, 
E tomando a língua de uma sábia serpente 
Introduziu-a em minha boca gelada 
Com sua mão direita encarnada. 

Então, com sua espada, abriu meu peito 
E arrancou-me o coração fremente, 
E no vazio de meu peito colocou 
Um pedaço de carvão em chamas. 

Fiquei como um cadáver, deitado no deserto, 
E ouvi a voz de Deus clamar: “Levanta, profeta, e vê e ouve, 
Sê portador da minha vontade- 
Atravessa terras e mares 
E incendeia o coração dos homens com o verbo.”] 


Alexander Puchkin 1826