terça-feira, 29 de dezembro de 2009

título sobre o nada

não há o que ser dito
tampouco escutado

aqui escrito, morre como o tempo
sem deixar vestígios litigiosos inúteis
que em nada acrescentam na dor por escrito.

se há de doer, que doa
e se há de escrever, que se façam ex-cristos, desamém!
e não esperar nada em troca

nem um, dois entendimentos quais quereres
tão pouco concordâncias pseudo-ideais
de seres cada quais




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guache:
ave negra, de cauda amarela, aproximadamente do tamanho de uma pomba.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Fragmentos de uma flor despedaçada

Despedaçaram-na, como quem despedaça uma existência em segundos.
E sua existência em segundos foi roubada, como quem rouba chocolates no supermercado, assim por nada.
E foi por quase nada que a flor se achou enganada, descobrindo desde então que ao seu redor não existia apenas a cor rosa, mas que o preto e o vermelho pigmentavam sensações e descoloriam a possibilidade de um mundo feito aqueles de ‘faz-de-conta’ que fazem questão de pintar para as florinhas no começo do desabrocho.
A pequena flor despedaçada só se deu conta do feito ao de fato desabrochar e assim foi tentando, correndo contra o tempo, juntar alguns pedaços e continuar.
Era difícil retomar, até que a flor começou a se inventar e em meio aos contratempos, parou de se lamentar, pois ela exalava a mais, exatamente pela tamanha dor que trazia consigo.
Dor essa que não era de sacrifício, não mais. Era uma dor que mexia assim, fazendo a flor criar pequenos pedacinhos de si, para depois se dar, ao mundo e principalmente à sua existência, que era só sua e de mais ninguém.
A flor florida não deixa mais roubarem seus pedaços, tampouco permite alguém entrar sem pedir licença.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Sobre a tragicidade de se (ex)istir.

Pensando o suicídio I

Através de um olhar psi, como ser ético quando alguém que se deu conta da inutilidade de sua vida decide pôr fim à palhaçada que vem vivendo?
Determinado dia, a mãe chega dizendo do fulano, aquele que morava na beira mar, casado com a dona sicraninha, aliás, recém-separado, já engatado com outra novinha bonitinha. Perguntou-me se eu o lembrava. Num dia difícil, já fui lhe respondendo com certo desdenho, porém já me justificando com o argumento de que jamais seria uma boa psicóloga, pois achava justo que ele pulasse de sua cobertura luxuosa da beira-mar, desde que se tenha chegado à conclusão de que se tinha tudo e, impreterivelmente, nada.

O bolo da cereja foi lhe dizer que havia muita gente inútil no mundo e que há muito não havia guerras ou pestes.

Pensando o suicídio II

Dono de grande empresa fazedora de jornal depois de almoçar tranquilamente, talvez o prato preferido, sobe para fazer a sesta e papoca a aresta de seu juízo final. Por que alguém terá que impedi-lo, se ele decidiu o melhor para si?
Dever-se-ia lutar pela eutanásia da alma. Talvez a única liberdade ínfima do ser finito.
Um filme* de meu apreço anuncia que o suicídio é uma questão filosófica. Qual é a pretensão dos “curadores” da alma; quem se quer salvar e de quê?

Pensando o suicídio III

Garoto(a) emotivo(a) após uma suposta partida de RPG (Role Playing Games) sobe no shopping e pula sobre farmácias e bolsas. Familiar meu que participa dos jogos me chama para ir um dia ver, fazer um estudo. Disse que já tinha gente da psicologia engajada, fazendo trabalhos(!).
O que se quer explicar com inúmeras articulações teórico-práticas acerca de comportamentos, personalidades e outros seres?
No fim se quer 15 minutos de fama na Grande Outra Telona. Com todas as licenças lacanianas, grata. Também estamíricas, onde o que vale é o trocadilo do esperto ao contrário.
Nessa briga de foice, uma foice de isopor construída por eles mesmos, na lata do luxo vão parar ilusões, sexo e questões de gênero.


*filme: Persépolis.