sábado, 31 de julho de 2010

odem

o circuito uniformemente invariado da mente
te aprisiona onde mais temes/desejas,
fazendo voltar à cena vista a olhos nus
e palpitada a pedaços afiados de coração de vidro.

há (ai) um gostar, ainda que seja de sofrer!
ou apenas um funcionar acostumado de dendritos e axônios,
talvez herdados de células de outrora.

fato é que o medo, no fundo [(no fundo)] conforta,
pois já se sabe seu nome e seu prato preferido.
além de que quando em vez ele lava a louça e a roupa suja,
fazendo-te levantar do sofá e tentar piscar para o mundo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

miséria humana

ai de quem mexer com a parte obscura que habita meu ser
pena é um sentimento que nem consegue mensurar o turbilhão retroativo
se seu jogo é sujo, lavo minha alma na lama que te alimenta,
depois, nem diabo, muito menos deus, abarcam as promessas e devaneios.

já que ajoelhou, reza, suplica, para a tua máscara aparentemente bem pregada, não se estraçalhar e a tua feiura de espírito alastrar o mundo (que está abarrotado de, diga-se de passagem)
podes enganar a todos, inclusive a si mesma, mas em relação a minha pessoa: só no pueril movimento das minhas cinzas queimadas ao vento.

enquanto vives a tua vidinha medíocre,
metaforizo o tempo/espaço que me devora em desalinho.
sei da inutilidade de tais ditos para sua cabecinha vazia incapaz de compreendê-los.

serei então rude e direta:
continue a abrir suas pernas
prefiro eu abrir a cabeça
um tanto quanto mais útil
=D

sexta-feira, 16 de julho de 2010

sintoma-tizando

a dor de perder o centro
até apertar o coração de desalento
correndo, visando

passar dor a dentro
escapando,
aprendendo
a
respirar.

(antes do coração enfartar)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Augusto dos Anjos (e demônios)

Tristezas de um quarto-minguante


Quarto Minguante! E, embora a lua o aclare,
Este Engenho Pau d'Arco é muito triste...
Nos engenhos da várzea não existe
Talvez um outro que se lhe equipare!


Do observatório em que eu estou situado
A lua magra, quando a noite cresce,
Vista, através do vidro azul, parece
Um paralelepípedo quebrado!


O sono esmaga o encéfalo do povo.
Tenho 300 quilos no epigastro...
Dói-me a cabeça. Agora a cara do astro
Lembra a metade de uma casca de ovo.


Diabo! não ser mais tempo de milagre!
Para que esta opressão desapareça
Vou amarrar um pano na cabeça,
Molhar a minha fronte com vinagre.


Aumentam-se-me então os grandes medos.
O hemisfério lunar se ergue e se abaixa
Num desenvolvimento de borracha,
Variando à ação mecânica dos dedos!


Vai-me crescendo a aberração do sonho.
Morde-me os nervos o desejo doudo
De dissolver-me, de enterrar-me todo
Naquele semicírculo medonho!


Mas tudo isto é ilusão de minha parte!
Quem sabe se não é porque não saio
Desde que, 6a-feira, 3 de Maio,
Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!


A lâmpada a estirar línguas vermelhas
Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata,
Como um degenerado psicopata
Eis-me a contar o número das telhas!


— Uma, duas, três, quatro... E aos tombos, tonta
Sinto a cabeça e a conta perco; e, em suma,
A conta recomeço, em ânsias: — Uma...
Mas novamente eis-me a perder a conta!


Sucede a uma tontura outra tontura.
— Estarei morto?! E a esta pergunta estranha
Responde a Vida — aquela grande aranha
Que anda tecendo a minha desventura! —


A luz do quarto diminuindo o brilho
Segue todas as fases de um eclipse...
Começo a ver coisas de Apocalipse
No triângulo escaleno do ladrilho!


Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho.
Cinco lençóis balançam numa corda,
Mas aquilo mortalhas me recorda,
E o amontoamento dos lençóis desmancho.


Vêm-me à imaginação sonhos dementes.
Acho-me, por exemplo, numa festa...
Tomba uma torre sobre a minha testa,
Caem-me de uma só vez todos os dentes


Então dois ossos roídos me assombraram...
— Por ventura haverá quem queira roer-nos?!
Os vermes já não querem mais comer-nos
E os formigueiros já nos desprezaram.


Figuras espectrais de bocas tronchas
Tornam-me o pesadelo duradouro...
Choro e quero beber a água do choro
Com as mãos dispostas à feição de conchas.


Tal uma planta aquática submersa,
Antegozando as últimas delícias
Mergulho as mãos — vis raízes adventícias —
No algodão quente de um tapete persa.


Por muito tempo rolo no tapete.
Súbito me ergo. A lua é morta. Um frio
Cai sobre o meu estômago vazio
Como se fosse um copo de sorvete!


A alta frialdade me insensibiliza;
O suor me ensopa. Meu tormento é infindo...
Minha família ainda está dormindo
E eu não posso pedir outra camisa!


Abro a janela. Elevam-se fumaças
Do engenho enorme. A luz fulge abundante
E em vez do sepulcral Quarto-Minguante
Vi que era o sol batendo nas vidraças.


Pelos respiratórios tênues tubos
Dos poros vegetais, no ato da entrega
Do mato verde, a terra resfolega
Estrumada, feliz, cheia de adubos.


Côncavo, o céu, radiante e estriado, observa
A universal criação. Broncos e feios,
Vários reptis cortam os campos, cheios
Dos tenros tinhorões e da úmida erva.


Babujada por baixos beiços brutos,
No húmus feraz, herética, se ostenta
A monarquia da árvore opulenta
Que dá aos homens o óbolo dos frutos.


De mim diverso, rígido e de rastos
Com a solidez do tegumento sujo
Sulca, em diâmetro, o solo um caramujo
Naturalmente pelos mata-pastos.


Entretanto, passei o dia inquieto,
A ouvir, nestes bucólicos retiros,
Toda a salva fatal de 21 tiros
Que festejou os funerais de Hamleto!


Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas!
Quisera ser, mima última cobiça,
A fatia esponjosa de carniça
Que os corvos comem sobre as jurubebas!


Porque, longe do pão com que me nutres
Nesta hora, oh! Vida, em que a sofrer me exortas
Eu estaria como as bestas mortas
Pendurado no bico dos abutres!

sexta-feira, 9 de julho de 2010



Momentos reflexivos são mais perigosos do que os perigosos realmente.

sábado, 3 de julho de 2010

A cura da solidão é a inteligência.
A do cinismo, podridão.

Seres carnais que morrem por medo,
já nos dizeres idosos: "o peru que morre de véspera"; só porque é véspera!
Espero eu que morram pela língua.

Viver de mentira não me dá tesão,
se há aqueles que se contentam com a rebarba alheia,
que se fartem então de restos mortais!

Quem sabe de uma sobra aculá fiques à sombra da mangueira.
Sendo assim, prefiro apodrecer com meus escritos e desconfiar até deles.


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Quando eu morrer, que emoldurem todos os quadros e façam uma ex-posição póstuma.
Igualmente na mesma linha de raciocínio, publiquem os escritos pós-tumos,

Não ser deste tempo é a única certeza que tenho, além da morte.